sábado, 5 de abril de 2014

Centro comercial de Viseu assinala Centenário

«O Palácio do Gelo Shopping, em parceria com o Regimento de Infantaria 14 e a Liga dos Combatentes, propõe, a partir do próximo dia 28 de Março, uma exposição alusiva ao centenário da 1ª Guerra Mundial. Patente até ao dia 7 de Abril, no piso 0, a mostra apresenta, através de imagens e textos descritivos, a realidade vivida durante o primeiro conflito global do século XX, proporcionando um olhar histórico sobre uma guerra na qual participou a então jovem República Portuguesa.» (fonte)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A guerra que mudou o século

Autor do volume Der Grosse Krieg: Die Welt 1914 - 1918 (A Grande Guerra: O Mundo entre 1914 e 1918), o cientista político Herfried Münkler fala à Deutsche Welle sobre a memória da Primeira Guerra, o papel desempenhado pela Alemanha no contexto do conflito armado e as lições que a Guerra deixou. Münkler é um dos mais importantes especialistas alemães que se dedicaram a uma análise profunda da Primeira Guerra Mundial e do significado do conflito para a história posterior da humanidade.

Deutsche Welle: Desde o início de 2014 a mídia tem lembrado a eclosão da Primeira Guerra Mundial, há 100 anos. A razão disso é realmente o centenário da Guerra ou estamos vivenciando uma nova forma de elaboração da história?

Herfried Münkler: Uma coisa não exclui a outra. Muitas vezes essas comemorações são uma oportunidade de se debruçar com calma e de maneira mais profunda sobre um tema. E isso mostra que a "Grande Guerra", como os britânicos, franceses e italianos chamam o conflito, deu o tom da violência que assolaria o século 20. É possível aprender muito estudando sobre a guerra, sobretudo sobre o que não se deve fazer. Penso que este tenha sido realmente um grande acontecimento, ao qual a Europa deve se deter para avaliar o que aconteceu de errado no século 20, e fazer melhor no século 21.

Na Alemanha, chamamos essa guerra que aconteceu entre 1914 e 1918 de "Primeira Guerra Mundial". Por que o título do seu livro é "A Grande Guerra"?

O conceito "Grande Guerra" tem, a princípio, algo estranho. E tem também um caráter de alerta, pelo menos para os ouvidos alemães. Pois foi a Guerra que, como guerra europeia, determinou o século 20. É possível dizer: sem esta guerra, não teria havido a Segunda Guerra Mundial, possivelmente também não teria havido o nazismo, nem o stalinismo, nem a tomada de poder bolchevique em Petrogrado [hoje São Petersburgo]. Ou seja, teria sido um século totalmente diferente. De forma que o termo "Grande Guerra" é adequado.

Se a Primeira Guerra Mundial teve esse efeito de alerta para todo o século 20 que se seguiu, por que ela é tão pouco presente na elaboração do passado alemão? Pelo menos muito menos que a Segunda Guerra Mundial.

É preciso diferenciar: nos países vizinhos da Europa Ocidental, como Itália, França e Reino Unido, a Primeira Guerra Mundial está muito presente como a Grande Guerra. Isso tem a ver com o fato de que as perdas humanas causadas por esta guerra foram maiores para estes países do que as da Segunda Guerra.
Na Alemanha isso é diferente, pois a Segunda Guerra Mundial estava atrelada a deslocamentos forçados, às destruições causadas pelos bombardeios, aos crimes praticados pelos alemães e à culpa alemã. Quanto mais você se locomove rumo ao Leste Europeu, mais presente é a Segunda Guerra Mundial na memória. É possível falar de um abismo entre Leste e Oeste na cultura da memória na Europa.

Um século depois da eclosão da Guerra, ressurge o debate sobre a culpa pelo conflito. O livro Os Sonâmbulos, do historiador australiano Christopher Clark, desencadeou esta discussão. Ele revida a tese, aceita há tempos, de que a culpa teria sido somente dos alemães, apontando como as grandes potências estavam inaptas a evitar a Guerra que começou nos Bálcãs. Qual é sua posição nesse debate sobre a culpa pela Guerra? Esse debate leva a algum lugar?

Não acho que o conceito de culpa seja útil neste contexto. Trata-se de um conceito moral ou talvez jurídico, formulado no artigo 231 do Tratado de Versalhes, segundo o qual toda a culpa é creditada à Alemanha. Mas esta é uma discussão que não precisamos levar adiante hoje em dia. Ou seja, faz mais sentido falar sobre a responsabilidade e voltar os olhos para as estimativas e decisões incorretas daquele momento. Isso é o que acredito ser útil hoje para aprender alguma coisa 100 anos depois da Guerra.

Qual foi o papel do Império Alemão naquela época na Europa Central?

A Alemanha não compreendeu seu papel peculiar de centro geopolítico. Não se pode dizer que não teria acontecido uma guerra aqui ou outra acolá no século 20, mas teria sido possível localizar essas guerras. O que os alemães fizeram foi reunir diversos caldeirões de conflito, ou seja, o conflito manifesto nos Bálcãs, com o conflito latente, mas de forma alguma agudo em torno da Alsácia-Lorena, e também o conflito em torno do controle do Mar do Norte. Isso foi uma burrice política óbvia.

O senhor diz que não se deve perder a periferia de vista. Devemos nos preocupar atualmente com o que acontece na Crimeia? Pode eclodir lá uma nova guerra mundial, 100 anos depois da Primeira?

Precisamos nos preocupar, mas não por causa da ameaça de uma guerra, mas pelas tensões políticas e pelas consequências das sanções econômicas. Mas principalmente porque fica claro aqui que o poder militar ainda é um fator determinante da política europeia – naturalmente apenas na periferia. O governo alemão não deixou o conflito acontecer, mas se envolveu em suas diversas etapas várias vezes como mediador – e isso não porque tenha relevância militar, mas apenas por causa de seu peso econômico e político.

No seu livro, o senhor aponta também a Ásia como região de conflito em potencial. O senhor chega a comparar a China de hoje com o Império Alemão da época.

Digno de nota é o fato de a China ser um país tão grande e tão forte, sobretudo economicamente, embora não se sinta reconhecida do ponto de vista político. Essa é uma situação que se assemelha em muitos aspectos ao Império Alemão de 1914. Pode-se dizer: muita coisa que deu errado na Europa de 1914 poderia também dar errado na China hoje. Ou seja, os políticos e estadistas chineses deveriam analisar detalhadamente a história que precedeu a Primeira Guerra Mundial e a Crise de Julho [desencadeada pelo atentado contra o casal herdeiro da coroa austríaca] a fim de não cometerem os mesmos erros de então.

Ressurgiu na Alemanha a discussão a respeito de uma participação mais intensa do país nas missões militares europeias. Como o senhor vê isso, tendo em vista nosso próprio passado? Fica bem para a Alemanha participar destas missões exatamente por causa do seu passado? Ou não?

Invertemos a pergunta: Fica bem para a Alemanha, tendo em vista seu passado, ficar de fora de tudo e, aos olhos dos vizinhos europeus, parecer covarde ou oportunista? Os outros puxam o carro em que os alemães seguem sentados e vão ficando cada vez mais gordos e se deliciando. Ou seja, acredito que esse papel especial, que tanto a Alemanha Ocidental quanto a extinta Alemanha Oriental desempenharam ,e com razão, precisa definitivamente acabar 25 anos depois da Queda do Muro de Berlim. Precisamos ser um povo, uma nação como as outras. Não precisamos nos destacar, mas não devemos fugir da raia quando somos requisitados.

Herfried Münkler é professor de Ciências Políticas na Universidade Humboldt de Berlim.
É autor de A Grande Guerra: O mundo entre 1914 e 1918. Editora Rowohlt, 2013.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

"No Man's Land - 100 years of the Great War in literature and the arts" na Universidade do Minho

XIII Jornadas de Inglês

Auditório do ILCH (Instituto de Letras e Ciencias Humanas), campus de Gualtar, Braga

Segunda-feira, 07-04-2014

O Departamento de Estudos Ingleses e Norte-Americanos da Universidade do Minho realiza a 7 de abril as XIII Jornadas de Inglês, no campus de Gualtar, em Braga. A iniciativa tem o tema "No Man's Land - 100 years of the Great War in literature and the arts", incidindo assim na representação da guerra na literatura e nas artes, no âmbito do 100º aniversário do início da I Guerra Mundial.

Programa e mais informação aqui: ILCH - Universidade do Minho

domingo, 30 de março de 2014

"A Europa entre Guerras". Uma jornada de reflexão e debate em Lisboa

3 e 4 de Abril de 2014 
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ UNL 
Edifício I&D, Piso 4, Salas Multiusos 2 e 3
Entrada livre

Mais informações em http://europebetweentheworldwars.wordpress.com 

Programa 

09h30-10h00 Recepção aos participantes/ Registration 

10h00-11h00 Conferência de abertura/ Lecture | Sala multiusos 2
Coming out from wars. Europe in post World Wars - Patrizia Dogliani, Università di Bologna

11h00-13h00 Nacionalismo e internacionalismo | Sala multiusos 2
Moderação: Maria Fernanda Rollo, FCSH e IHC, FCSH-UNL

  • Winners in the war, defeated in peace. The legacy of the Great War as laceration of Italian society: from the “two red years” to the reactionary drift of fascism (1919-1925) - Mauro Pellegrini, White War Museum – Temù, Italia 
  • The International Battle for Grain. Italy, the League of Nations and the struggle for regulating the production of wheat during the Great Depression - José Antonio Sánchez Román, Universidad Complutense de Madrid, España 
  • Nationalism and internationalism. The socialist Spanish intellectual elites and the discourses of the nation - Aurelio Martí Bataller, Universitat de València, España 
  • O Comintern e Portugal - João Arsénio Nunes, Instituto Universitário de Lisboa 


11h00-13h30 Espaços e representações culturais | Sala multiusos 3
Moderação: Carlos Vargas, IHC, FCSH-UNL

  • Conflito e compromisso no campo arquitectónico entre guerras - Joana Brites, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra The role of gardens and public parks in the reconstruction of cities destroyed by war: an overview - Ana Duarte Rodrigues, CHAM, FCSH-UNL 
  • A dança, uma arte em expansão entre Guerras - Maria João Castro, Instituto de História da Arte, FCSH-UNL 
  • Entre nacionalismo e autoritarismo: os discursos sobre a cultura musical em Portugal no período entre Guerras (1919-1939) - Luís Miguel Santos, CESEM, FCSH-UNL 
  • Spain and the International Institute of Intellectual Co-operation (1926-1939) - Diana Sanz Roig, Universitat Pompeu Fabra, España 
  • Nacionalismo desportivo entre guerras – as seleções como instrumento de unidade nacional - César Rodrigues, CEIS20 – Universidade de Coimbra 


13h30-15h00 Pausa para almoço/ Lunch

15h00-18h00 Pensamento e ideologias | Sala multiusos 2
Moderação: Maria Manuela Tavares Ribeiro, FL-UC e CEIS20 – Universidade de Coimbra

  • Politics beyond Liberalism? Max Weber’s Political Thought and the German Critical Juncture of 1917-1919 - Pedro T. Magalhães, CESNOVA, FCSH-NOVA 
  • Ideias federais na Europa entre guerras - José Gomes André, Universidade de Lisboa “Pela Paz”! A ideia de “Estados Unidos da Europa” entre guerras. Uma visão a partir da diplomacia portuguesa - Isabel Baltazar, FCSH-UNL 
  • L’universalità di Roma. A ideia de Europa e as tentativas de constituição duma internacional fascista - Mario Ivani, IHC, FCSH-UNL 


16h30-16h45 Pausa / Pause
Moderação: Teresa Nunes, FL-UL e IHC, FCSH-UNL

  • O fascismo italiano e os jornalistas portugueses: Os casos de Augusto de Castro, Homem Cristo Filho, António Ferro e João de Castro Osório - Clara Isabel Serrano, CEIS20 – Universidade de Coimbra
  • Contribution of British West African Colonies to British Reconstruction in the Inter-war Period - Fewzi Borsali, University of Adrar, Algeria 
  • Anti-semitismo em Portugal: João Lúcio de Azevedo e Gilberto Freyre - Ana Rita Veleda Oliveira, FL-UC/CES – Universidade de Coimbra 


15h00-17h00 História e Memória | Sala multiusos 3
Moderação: Isabel Maria Freitas Valente, CEIS20 – Universidade de Coimbra

  • Médicos milicianos portugueses nos palcos da grande guerra - Francisco Miguel Araújo, CITCEM, Faculdade de Letras da Universidade do Porto 
  • Uma “epopeia maldita” da “tropa d’África”? Memórias da Grande Guerra sobre Além-mar - Sérgio Neto, CEIS20 – Universidade de Coimbra 
  • Jünger e Haffner: Contradições e ambiguidades nas Memórias Alemãs da I Guerra Mundial - Marisa Fernandes, ISCSP-UL 
  • A espanhola polaquizada - Sofía Casanova Lutosławska, a testemunha da história da Europa entre Guerras - Anna Olchówka, Universidade de Wroclaw, Poland 
  • Um Olhar Singular: Mundividência do jovem Marcelo Caetano antes do conflito e do poder – 1929-1939 - Márcio Barbosa, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 


4 de Abril / April 4 

09h00-10h15 Regimes políticos, religião e autoritarismo | Sala multiusos 2
Moderação: Alice Cunha, IHC, FCSH-UNL

  • Religion and Politics: Revisiting the Origins of Political Regimes in Western Europe, 1870s-1930s - Tiago Fernandes, Departamento Estudos Políticos – Universidade Nova de Lisboa 
  • Religião e Política Entre Guerras. Existência e fim do Centro Católico Português (CCP): uma releitura da sua evolução histórica (1919-1940) - Paula Borges Santos, IHC, FCSH-UNL 
  • Cunha Leal e os regimes totalitários nos anos 30 - Júlio Rodrigues da Silva, FCSH-UNL 


10h15-10h30 Pausa/ pause

10h30-12h00 Espanha entre guerras | Sala multiusos 2
Moderação: Ruben Serem, IHC, FCSH-UNL

  • The Phenomenology and Logic of Revolutionary Violence: Andalusia during the ‘Bolshevik Triennium’, 1918-1920 - James Matthews, University College Dublin, Ireland 
  • The Catalan Autonomist project of 1919 and its failure - Àngels Carles-Pomar, Universitat Pompeu Fabra, España 
  • Spanish socialism within republican democracy. Reformism and radicalization from a regional perspective (1931-1936) - Sergio Valero Gómez, University of Valencia, España 
  • A ditadura portuguesa vista pela II república espanhola - Tiago Tadeu, CEIS20 – Universidade de Coimbra  

09h-12h00 Vencer a guerra, ganhar a paz | Sala multiusos 3
Moderação: Ana Paula Pires, IHC, FCSH-UNL

  • Guerra à ciência em tempo de paz (1918-1939) - Cláudia Ninhos, IHC, FCSH-UNL 
  • Entre Nova Iorque e Berlim: mapeamento do campo da educação comparada na Europa entre-guerras - Luís Grosso Correia, Universidade do Porto 
  • Espaços e representações culturais e científicas numa geração europeizada ou os bolseiros no estrangeiro da Junta de Educação Nacional (1929/36) - Quintino Lopes, CEHFCi – Universidade de Évora 


10h15-10h30 Pausa/ Pause
Moderação: Aniceto Afonso, IHC, FCSH-UNL

  • A Visão da “Guerra Total” no Pensamento Militar Português - António Paulo Duarte, Instituto da Defesa Nacional/IHC 
  • A Inovação Militar no período entre guerras e o início da II Guerra Mundial - Luís Barroso, Instituto de Estudos Superiores Militares 
  • Os Açores entre Guerras (1919-1939) - Sérgio Rezendes, Universidade dos Açores 
  • Mustafa Kemal Atatürk e o Processo de Modernização da Turquia (1923-1938) - João Nobre, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra


Fonte:  II Encontro Anual A Europa no Mundo - A Europa entre Guerras (1919 - 1939)

domingo, 9 de março de 2014

O horror do gás

"Gassed", de John Singer Sargent, representa as consequências de um ataque de gás mostarda na I Guerra
Entre tantas outras novidades, a I Guerra apresentou também ao mundo o horror da guerra química moderna em larga escala: o inimigo invisível que fez razias nos campos de batalha europeus e marcou todos os que passaram pelas trincheiras. A utilização de gases e venenos na guerra é uma prática milenar* e nas décadas que antecederam 1914 já tinham sido assinados vários acordos limitando ou proibindo a sua aplicação militar, a Grande Guerra, no entanto, constituiu a oportunidade ideal para os generais testarem o método em doses industriais, tendo em conta sobretudo as características de imobilidade da própria guerra de trincheiras que imperou nos teatros de operação europeus.

Gás lacrimogénio, gás mostarda (gás amarelado que queimava a pele e causava danos irreparáveis nos pulmões), ou agentes químicos letais como o fosgénio e o cloro, tornaram-se nomes terrivelmente familiares naquela altura. Estima-se que as armas químicas mataram ou feriram cerca de 1.3 milhões de pessoas, incluindo dezenas de milhares de civis desprotegidos das zonas gaseadas. Estas armas químicas foram primeiro utilizadas nas trincheiras pelo exército francês (gás lacrimogénio) e os alemães não tardaram a responder com a utilização maciça de cloro. No início limitavam-se a abrir barris de cloro, que espalhavam ao sabor do vento, quando este soprava na direção do inimigo, mas cedo ambos os lados aprenderam a adaptar obuses de artilharia, carregando-os de fosgénio ou de outro tóxico qualquer, desencadeando uma corrida frenética de desenvolvimento de métodos de matar com gás. 

"Wounded Soldier", de Otto Dix, pintor e soldado alemão da I Guerra
(1891 - 1969)
Ao mesmo tempo, embora mais lentamente, foram também sendo desenvolvidos aparatos de defesa pessoal e surgiram as primeiras máscaras com filtros muito rudimentares, mas nos primeiros anos de guerra a esmagadora maioria dos soldados e das populações estavam completamente desprotegidos, não sendo raro embeber lenços em urina (a amónia da urina neutralizava em parte os efeitos do cloro). 

Mas a devastação da guerra química moderna foi brutal e a sua própria natureza insidiosa, contrária a uma prática bélica minimamente ética, acabou por levar a uma das mais positivas consequências do conflito, o Protocolo de Genebra, firmado em 1925, que bania completamente as armas químicas ou biológicas. O tratado foi quebrado diversas vezes no século XX - na II Guerra ou na guerra Irão-Iraque, por exemplo -, mas tornou-se um compasso ético internacional para a maioria das forças armadas convencionais do mundo.

O horror da guerra química em larga escala ficou também plasmado na arte e na literatura. Um exemplo dos mais marcantes é o poema Dulce et Decorum Est, de Wilfred Owen, considerado o grande poeta inglês da I Guerra:

Bent double, like old beggars under sacks,
Knock-kneed, coughing like hags, we cursed through sludge,
Till on the haunting flares we turned our backs;
And towards our distant rest began to trudge.;
Men marched asleep. Many had lost their boots;
But limped on, blood-shod. All went lame; all blind;
Drunk with fatigue; deaf even to the hoots  
Of tired, outstripped Five-Nines that dropped behind.
Gas! Gas! Quick, boys! – An ecstasy of fumbling,
Fitting the clumsy helmets just in time;
But someone still was yelling out and stumbling,
And flound'ring like a man in fire or lime...
Dim, through the misty panes and thick green light,
As under a green sea, I saw him drowning.
In all my dreams, before my helpless sight,
He plunges at me, guttering, choking, drowning.
If in some smothering dreams you too could pace
Behind the wagon that we flung him in,
And watch the white eyes writhing in his face,
His hanging face, like a devil's sick of sin;
If you could hear, at every jolt, the blood
Come gargling from the froth-corrupted lungs,
Obscene as cancer, bitter as the cud
Of vile, incurable sores on innocent tongues,
My friend, you would not tell with such high zest
To children ardent for some desperate glory,
The old Lie; Dulce et Decorum est
Pro patria mori.

Wilfred Owen (8 October 1917 - March, 1918)



* Embora haja registos mais antigos no Oriente (sobretudo na China) um dos primeiros registos históricos da utilização bélica de gás tóxico no mundo ocidental remonta à Guerra do Peloponeso, entre Esparta e Atenas, no século V a.C.. Fazendo cerco a uma cidade ateniense, os espartanos queimaram pilhas de madeira, resina e enxofre, junto às muralhas da cidade sitiada.

Reaproximações e desmistificações. Associação de Setúbal promove aproximação à Alemanha em tempo de Centenário

Inscrições abertas - intercâmbio na Alemanha assinala centenário da I Guerra Mundial

No ano em que se começa a assinalar o centenário da Primeira Guerra Mundial, a associação cultural e juvenil Experimentáculo, de Setúbal, promove um intercâmbio sobre o assunto. Deste modo, «estão abertas inscrições para 10 jovens, dos 15 aos 30 anos, que gostem de história, queiram conhecer novas pessoas, descobrir uma cultura diferente e adquirir novas competências pessoais e profissionais».

O projeto vai decorrer entre 13 e 23 de Abril, na cidade alemã de Oldenburg e reunirá 45 jovens de Portugal, Alemanha e França. A participação custa 150 euros e «contempla a viagem, a estadia, a alimentação e todas as actividades previstas no programa: workshops, visitas, encontros, etc». As inscrições podem ser efectuadas através do email experimentaculo@gmail.com ou do telefone 964724671.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma guerra sem (poderes) inocentes

A Temas&Debates e o Círculo de Leitores, como já aqui foi referido neste blogue, colocaram já no mercado livreiro português a última obra da historiadora canadiana Margaret MacMillan - bisneta do primeiro-ministro britânico à altura da I Guerra, David Lloyd George -, um livro que tem dado muito que falar e que tem marcado o tom no sentido de uma nova leitura em relação à I Guerra e sobretudo às suas causas mais imediatas. A "culpa", como se perceberá, é bem mais disseminada do que parece e os alemães não são, definitivamente, os únicos "maus" de uma "fita" em que é difícil encontrar inocentes...

Segundo a autora de «A Guerra que acabou com a Paz», que passa a pente fino os catorze anos que precederam o conflito e transcende o habitual maniqueismo anti-germânico, «Parece-me que a maior responsabilidade é imputável à determinação insensata da Áustria-Hungria em destruir a Sérvia em 1914, à decisão da Alemanha no sentido de a apoiar totalmente e à impaciência da Rússia por mobilizar". No mesmo parágrafo, a autora defende ainda que a França e a Grã-Bretanha não desejavam a Guerra, «embora seja possível afirmar que poderiam ter-se esforçado mais para a impedir (...)». Continua aqui: Margaret MacMillan explica como a Europa começou a I Guerra Mundial | Cultura | Diário Digital

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Holocausto equino

«Ao fim dos quatro anos da guerra que começou em 1914, o mundo contabilizava suas vítimas: 15 milhões de mortos e mais 20 milhões de feridos. Agora, no centenário da I Guerra Mundial, os pesquisadores voltam os olhos para as vítimas esquecidas do conflito. Além da carnificina humana, as batalhas que se espalharam pela Europa dizimaram cerca de 8 milhões de cavalos, a principal força animal usada na agricultura na época. A cada dois homens atingidos por tiros, bombas e gases letais, um cavalo morreu.(...)». Continua aqui: Cavalos: as vítimas esquecidas da I Guerra Mundial - Ciência - Notícia - VEJA.com

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Onde tudo começou. A Sérvia e as memórias no olho do furacão

Com um singelo telegrama, umas linhas telegráficas, declarou o Império Austro-Hungaro guerra à Sérvia em forma de ultimato impossível - e que o governo sérvio recusou. E assim, com esta aparente displicência, se deu o tiro de partida para uma das maiores tragédias da humanidade - em rigor, o segundo tiro de partida, já que o primeiro tinha sido dado pelo anarquista radical sérvio Gavrilo Princip, ao assassinar o herdeiro do trono dos Habsburgo, dinastia reinante em Viena. Seja como for, os sérvios também não esquecem e, tal como os alemães (e todos os envolvidos, de resto...), recusam ser o bode expiatório da guerra. Assim, entre outras iniciativas, Belgrado acaba de ser inaugurada a exposição "A Primeira Guerra Mundial nos documentos do Arquivo da Sérvia", onde se reflete a sua visão dos factos. Ler aqui: A guerra que começou com um telegrama - EXAME.com

"Memorias e documentos: resistindo à guerra". Uma exposição na Torre do Tombo


O Arquivo Nacional da Torre do Tombo assinala o centenário da I Grande Guerra com a exposição "Memórias e documentos: resistindo à guerra" numa abordagem desenvolvida em núcleos temáticos abrangendo o (re)desenho político e geo-estratégico do mundo, a resistência aos efeitos da guerra vividos em Portugal, as imagens de guerra captadas pelo fotógrafo Arnaldo Garcês e as memórias da guerra perpetuadas nos monumentos aos mortos em combate.

Inauguração: quinta-feira, 27 de fevereiro, pelas 17h00

(link)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Call for papers da revista Nação e Defesa

«A Grande Guerra ou Primeira Guerra Mundial (1914-1918) é consequência de rivalidades cruzadas entre as principais potências, quer na Europa, quer no resto do mundo, de carácter variado (ideológico, político, económico, imperial).

Interessa compreender e analisar, de forma crítica e inovadora, a situação política e estratégica de Portugal, no dealbar do século XX e como esta influenciou a decisão de intervir na contenda mundial em curso entre 1914 e 1918.

Neste contexto, convidamos todos os interessados a submeterem um artigo que se enquadre no tema genérico “Portugal na Grande Guerra – a Posição de Portugal no Mundo”.

Os artigos deverão ser enviados até 7 de Julho de 2014 para idn.publicacoes@defesa.pt »

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Rússia na véspera da Guerra

«Em 2014, a população russa comemora centésimo aniversário do início da Primeira Guerra Mundial. Como o país passou os primeiros sete meses do ano antes do começo das atividades militares? O historiador Lev Lurie responde a esta pergunta.(...).». Continua aqui A vida na Rússia antes da Primeira Guerra Mundial | Gazeta Russa

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Índia e a memória relutante das colónias. A I Guerra como conflito de impérios coloniais

Num dos anteriores posts, falámos (ainda que ao de leve) na Nova Zelândia. A I Guerra, sendo Mundial (sim, ainda há quem ache que não foi), envolveu tropas de países de todos os continentes, não só por via de um cenário intrincado de alianças entre nações soberanas, mas também porque a I Guerra foi sobretudo um conflito entre potências coloniais, que mobilizaram todas as suas possessões imperiais para o esforço de guerra. 

Soldados indianos na Batalha do Somme, em julho de 1916.
Foto da coleção do Imperial War Museums (fonte)
Isto significa, por exemplo, que a Grã Bretanha tenha recorrido a contingentes ultramarinos dos quatro cantos do seu Império: Nova Zelândia, Austrália, Canadá, África do Sul e, com grande destaque em termos de tropas e baixas, a Índia. Em muitos aspetos estes países eram já autónomos, mas de uma forma ou de outra pertenciam à esfera de influência britânica, que mantinha controle, por exemplo, das respetivas políticas externas. Ainda hoje se mantêm nessa esfera de influência, constituindo a espinha dorsal da Commonwealth. Mas, sendo colónias, a sua importância não pode ser subestimada.

O caráter "imperial" desta singular guerra fica também patente, naturalmente, no envolvimento das principais colónias africanas portuguesas, Moçambique e Angola. Estes territórios foram palco de muitas batalhas e escaramuças com as forças alemãs, que procuravam manter e expandir as suas possessões africanas, sobretudo o Tanganica e o Sudoeste Africano - sendo de referir que Portugal também não se fez rogado na tentativa de manter e expandir, abrindo hostilidades no norte de Moçambique, com uma incursão ao Tanganica. Do lado português, estima-se que combateram cerca de 12 mil soldados africanos indígenas*: «O contingente português atingiu números próximos dos 20000 homens, entre as forças desembarcadas e o recrutamento local, com um efectivo, grosso modo , de 12000 africanos (12) sem contabilizar os aproximadamente 90000 carregadores (13).» (fonte)

O caso da Índia é particularmente importante no quadro global da guerra, quanto mais não seja, pela escala das forças nativas utilizadas e pela dimensão das baixas. E neste caso, ao contrário dos africanos sob domínio português, que serviram o exército português nos seus territórios natais, as tropas indianas serviram em locais tão distantes e inóspitos como o Médio Oriente e a Turquia (sobretudo no célebre estreito de Dardanelos, palco da desastrosa Campanha de Galípoli) contra o Império Otomano, bem como no Egito, África Oriental e nas trincheiras geladas e lamacentas do Norte da Europa. No total, cerca de um milhão e trezentos mil indianos foram mobilizados para o esforço de guerra e as Forças Expedicionárias Índianas sofreriam 74187 baixas mortais, a que se somam mais de 69 mil feridos (a Wikipedia refere um número ligeiramente inferior de feridos).

E no entanto, sendo este um episódio marcante da sua História recente, os indianos parecem não querer falar muito acerca do tema. Tema que em círculos nacionalistas é até algo embaraçoso. Do que tenho percebido, de resto, é um traço comum às ex-colónias ultramarinas, sejam portuguesas, sejam inglesas ou francesas: à exceção das ex-colónias com população de origem europeia/branca - Nova Zelândia, Canadá ou Austrália, que celebram e estudam com grande solenidade a sua participação neste conflito - a I Guerra é regra geral uma memória reprimida. Dá a ideia de que, para africanos ou asiáticos, a I Guerra foi um assunto de brancos, para o qual foram arrastados sem honra nem vontade. A I Guerra está, assim, intimamente associada a um passado de subjugação colonial, que não atrai as novas gerações, muito menos os espíritos mais nacionalistas.

O caso da Índia será, desta forma, paradigmático, não andando muito longe, julgamos, do que se poderia dizer hoje em dia acerca de Angola ou Moçambique - numa breve pesquisa, não encontrei, nem num nem noutro país, qualquer menção ao centenário da Guerra ou a eventuais eventos que o recordem, ou sequer homenagens aos soldados africanos mortos no conflito, é o silêncio absoluto. Em relação à Índia, então, como é sublinhado no artigo do The Times of India abaixo linkado: «For a hundred years, the story of this force had been nearly forgotten — the narrative of World War I has so far been predominantly white. The Indian story had to be told because it rarely happens that one nation's war is fought by another's armies. But not only did Britain downplay the contribution of these men but India, too, chose to ignore them. In fact, the nationalist voices in free India actively disowned parts of this history.(...)».

E no entanto, as coisas parecem estar a mudar, pelo menos na Índia, que recomeça a interessar-se por este evento brutal da sua história, e começa a investigar e a organizar de forma séria os arquivos dessas datas. Sobretudo pela mão do Centre for Armed Forces Historical Research, em Nova Deli, ou por instituições inglesas como o Brighton Museum & Art Gallery.

Soldado moçambicano da I Guerra Mundial (fonte)
«Sadly, when the survivors returned home, no hero's welcome awaited them. India had given full military, political and economic support (the country had gifted 100 million pounds to fund the war) to Britain anticipating dominion status and home rule in return. But once the war ended, the British were in no hurry to appease India. So, the returning army seemed to Indians like the Empire's instrument of oppression. But now, there is hope that the Indian soldier will get his due place in history.»

No contexto do mundo lusófono, será então curioso perceber o que é que Angola e Moçambique estão fazer (ou não) relativamente à memória da sua participação na I Guerra Mundial, e tendo em conta o pesado balanço - «(...) Mas o teatro de guerra em África foi o mais mortífero para os portugueses - 4811 militares morreram em Moçambique. No rescaldo da Grande Guerra, entre mortos, feridos e desaparecidos "36% dos mobilizados foram baixas", sublinha o tenente-general Mário de Oliveira Cardoso.» (fonte). 

Muitas daquelas baixas foram certamente soldados e carregadores locais, que constituíam grande parte das forças sob comando português, sobretudo oriundas de Moçambique, formadas em Companhias Indígenas Expedicionárias que foram também enviadas para Angola, Timor e Índia. Em tempo de centenário, e apesar de constituir uma memória exógena (anterior à nacionalidade), será, em suma, que o soldado africano, espécie de "carne para canhão" esquecida, também merecerá o seu «due place in history?»...


World War I, the India story retold - Times Of India


*A este respeito há algumas discrepâncias entre fontes, sendo que de acordo com números da História da Primeira República Portuguesa, a I Guerra em África envolveu ao longo dos quatro anos, cerca de 30 mil efetivos portugueses, mais de 10 mil dos quais nativos africanos.