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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A Política e a Diplomacia no Início da Guerra (art. de Martins da Cruz)

Nas vésperas da Grande Guerra, João Chagas era embaixador em Paris. Fora presidente do ministério (primeiro-ministro), ministro do Interior e ministro dos Negócios Estrangeiros nos primeiros anos da República. A 27 de julho de 1914, um dia antes do início do conflito, escrevia no seu Diário: “Anunciam-me que a Inglaterra propõe uma mediação e que a França se associa a esta diligência. Mas anunciaram-me, também, que as hostilidades da Áustria contra a Sérvia começariam amanhã. Se for assim, é o déclenchement. É a guerra geral, é o fim do mundo.” (Diário de João Chagas, Vol. I, p. 111, 2.ª edição, Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1930).
E foi o fim de um mundo.
Há quem diga que o século XX começou em 1914 e terminou em 1989, com a queda do muro de Berlim e a implosão do império soviético. Teria sido, assim, o século mais curto da história da humanidade.
A diplomacia e, em especial, a história diplomática permitem vários ângulos de análise do passado. Dois são mais importantes:

– Os filtros políticos e diplomáticos atuais, o que pode levar a comparações interessantes;
– Os critérios da época que se analisa e com as informações e os métodos de intervenção políticos e diplomáticos da altura. Ambos são legítimos. Vejamos como eram a política e a diplomacia no início da Guerra, utilizando os critérios de época sem, contudo, os cristalizar.
Em 1914, o mundo era dominado pela Europa:
– Na demografia: 25% da população mundial era europeia; 40 milhões de europeus tinham emigrado nas últimas décadas; e só em 1913, um milhão e 350 mil europeus tinham saído da Europa, sobretudos para os Estados Unidos da América;
– Na expansão imperial: os impérios inglês, francês, português, belga, alemão e italiano somavam 500 milhões de habitantes e expandiram-se por todos os continentes, sobretudo na África e na Ásia, para além da influência espanhola nas Américas;
– Na economia e na produção industrial: embora sem grandes reservas de matérias-primas, a Europa detinha 52% da produção industrial mundial, sobretudo na metalurgia (60%) e no têxtil (70%);
– No comércio internacional, com 61% do total;
– Nos transportes: a marinha mercante europeia representava 85% da tonelagem mundial;
– Nas finanças: a Inglaterra, a França e a Alemanha eram os principais exportadores de capital;
– Na ciência e na tecnologia, que se refletiram nos avanços no domínio militar, no military build up;
– Na expansão religiosa: as missões católicas no mundo tinham 16 000 membros, as protestantes 8000;
– Na cultura, com o vanguardismo, a pintura e a literatura, além da difusão das ideias políticas e de expansão intelectual que, na perceção dos outros povos, equipavam a Europa à civilização. 

O destino do mundo era ainda europeizar-se ou ocidentalizar-se. O que está longe de ser o caso nos dias de hoje. Por outro lado, os principais países europeus eram democracias mais ou menos estabilizadas, e, apesar dos tiques imperiais, que veremos quanto ao decision making power, os parlamentos tinham um papel importante na governação. 
A Europa era um continente próspero no seu conjunto, embora o Produto Interno Bruto (PIB) francês fosse menos de metade do norte-americano e o PIB alemão 60% do inglês e metade do canadiano.
Numa perspetiva mundial, a presença europeia era determinante em África, na Ásia e na América Latina. 
Com exceção de Libéria e da Etiópia, a Europa colonizava a África, incluindo o Magrebe. 
O continente africano estava dominado por europeus, que controlavam a administração, a segurança e a economia. A Europa Ocidental era o destino de 83% das exportações africanas e representava 72% das importações. O comércio dos Estados Unidos com a África era inferior a 5% do total. 
A Alemanha tinha uma presença reduzida em África, que queria mais robusta. O governo inglês, num acordo secreto de outubro de 1913, repartiu zonas de influência com os alemães à custa de parte das colónias portuguesas de Moçambique e de Angola e, ainda, do Congo Belga. Este acordo nunca viria a ser ratificado por oposição da França. E ainda hoje não há certeza de que os governos portugueses da época tenham sabido do seu conteúdo exato. 
Também na Ásia, os interesses europeus eram dominantes. A única exceção era o Japão que derrotaria a Rússia em 1905, na primeira vitória de um Estado asiático sobre uma potência europeia, e que ocupara a Coreia e a Manchúria. 
A Europa dominava de uma ou outra forma o resto da Ásia, que já na altura tinha metade da população mundial. 
A Índia, com 315 milhões de habitantes, pertencia à administração inglesa. 
A Indochina era partilhada por ingleses e franceses. O império colonial holandês, construído em grande parte à custa do antigo império português do oriente, tinha 50 milhões de habitantes. E na China, o peso e a influência europeus marcavam o ritmo comercial, industrial e financeiro, nas mãos de grupos europeus que controlavam a débil dinastia manchu e, após 1911, pilotavam a jovem República chinesa. 
A política das esferas de influência tinham trazido para os europeus, sobretudo franceses e ingleses, mas também italianos e alemães, o que restava do império otomano, que perdera os seus territórios europeus e a iniciativa económica e financeira no resto do império. A entrada na guerra de nada lhe valeria, pois ficaria limitado ao que é hoje o território turco. 
Contudo, era na América Latina que a presença e a influência europeias mais se expandiam, nos aspetos económicos, sociais e culturais. A influência de espanhóis, ingleses e italianos na Argentina, de portugueses, ingleses e alemães no Brasil, de alemães no Chile era determinante no plano económico e intelectual. A França também estava presente, especialmente, na cultura e no ensino. 
A Europa tinha transformado a vida política, económica e cultural da América Latina, por vezes, à custa da classe média local, impedindo de certo modo que as elites locais tivessem autonomia e capacidade de decisão em função de interesses nacionais. E os Estados Unidos da América estavam atentos às oportunidades que iriam surgir com a guerra que se adivinhava e que conduziria – como conduziu – a uma perda de influência e sobretudo da presença económica europeia nas Américas.
Aliás, os Estados Unidos da América e o Japão eram, em 1914, os únicos concorrentes credíveis da Europa. 
Com 54 milhões de habitantes, o Japão industrializara-se rapidamente e iniciara uma expansão territorial que iria prosseguir durante a guerra, sobretudo à custa da China. Curiosamente, não são os asiáticos que se opõem a essa expansão, mas europeus e americanos que procuram limitar a zona de influência japonesa. 
Com quase 100 milhões de habitantes, os Estados Unidos da América já tinham uma população superior a todos os países europeus em 1914, com exceção da Rússia. O comércio com a Europa era essencial: 67% das exportações americanas, 47% das importações. Cada vez menos produtos agrícolas, cada vez mais matérias-primas e produtos industriais. A política externa dos Estados Unidos é a primeira a refletir com prioridade nas questões económicas e financeiras, concentrando-se, sobretudo, na América Latina (o pan-americanismo e a doutrina Monroe), e na Ásia (na sequência das anexações no Pacífico e na Ásia Oriental). E com uma relativa distância em relação aos europeus. Começa a despontar, também, a rivalidade entre os Estados Unidos e o Japão no Pacífico e na Ásia, que atingiria o ponto de rutura na II Guerra Mundial. 
A forte presença europeia no mundo, através dos então chamados impérios coloniais, levou mesmo alguns historiadores, neste Centenário da Grande Guerra, a olharem para o conflito na perspetiva desses impérios, analisando não só uma guerra entre europeus que se tornaria mundial, mas a guerra entre impérios. Pelo envolvimento das colónias, pela mobilização das suas populações, pelas consequências no final do conflito. 
Nesta perspetiva (veja-se, por todos, Impérios em Guerra 1911-1923, org. de Robert Gerwarth e Erez Manela, D. Quixote, Lisboa, 1914) talvez a única em que Portugal aparece num plano de igualdade com os outros países envolvidos, o resultado foi esclarecedor:

– A guerra teria acelerado a decadência dos impérios coloniais, que iriam desaparecer no rescaldo da II Guerra Mundial, nas décadas de 60 e 70; 
– Na Grande Guerra, os impérios de países ditos “terrestres” como a Alemanha, a Rússia, a Áustria e mesmo o império otomano iriam desaparecer; 
– Os impérios de países “marítimos”, como a Inglaterra, a França, Portugal, Bélgica e até a Itália e o Japão iriam manter-se e, nalguns casos, aumentar por força dos mandatos da Sociedade das Nações; 
– No Médio-Oriente, a França e a Inglaterra traçariam no pós-guerra as fronteiras que basicamente são as que existem ainda hoje e, como sempre, tal como sucedeu em África na Conferência de Berlim, ignorando etnias, história e religiões. Esta fragmentação teve resultados conhecidos num e noutro caso, infelizmente atuais nos Grandes Lagos em África e com o chamado Estado Islâmico, para só citar estes dois exemplos.

A Guerra de 1914-1918 representou, de certa forma, uma rutura com a ordem que reinou na Europa com o Congresso de Viena de 1815. Na reconstrução da Europa após Napoleão, os Tratados de Viena criaram uma nova ordem ou concerto europeu, que previa que as questões que separavam os países ou os eventuais conflitos deveriam ser tratadas pelas potências, através de uma rede de relações diplomáticas bilaterais e por congressos ou conferências internacionais, dando início a fórmulas incipientes mas estabilizadas do que hoje chamamos diplomacia multilateral. 
Este sistema de consultas quase permanente era, sobretudo, pragmático e não normativo. Visava manter os equilíbrios saídos de Viena e evitar novas guerras da amplitude das aventuras de Napoleão. Era facilitado por interesses partilhados pelos Estados europeus da altura, pela aceitação, por todos, de uma civilização e de valores baseados no denominador comum de herança cristã. 
Este equilíbrio foi posto em causa sobretudo pela Alemanha, após a Guerra Franco-Prussiana de 1870, concretamente por Bismark, que começaria a cristalizar o poder na nova Alemanha, através de um sistema de alianças que iria romper as plataformas e os entendimentos que vinham do Congresso de Viena. 
Foi Bismark e os seus sucessores que estiveram na origem dos dois blocos europeus, a Tripla Aliança e a Entente Cordiale que iriam dividir a Europa. 
A guerra viria a ser, como sempre, o resultado e a convergência no tempo de várias causas, e não apenas deste novo sistema de alianças entre europeus. 
Podemos inventariar algumas:

– A construção dos blocos europeus: com a Alemanha e o império austro-húngaro, a que se iria juntar a Itália, a Tripla ou Tríplice Aliança, em 1882, os chamados impérios centrais. 
– A Entente Cordiale, da França e da Inglaterra, em 1904, a que se juntará a Rússia em 1907, para se precaverem contra uma possível guerra. Esta Entente Cordiale é também o resultado do declínio inglês que necessitaria da França para enfrentar a Alemanha. Esta inflexão inglesa iria suscitar legítimos receios portugueses, já que o então equilíbrio peninsular exigia um aliado forte que compensasse Portugal das assimetrias na península, favoráveis como sempre a Espanha. 
– Ao contrário da Tripla Aliança, os países da Entente Cordiale não assumiram nenhum compromisso automático de defesa em caso de guerra. 
– Mas a Europa ficaria dividida em blocos na primeira década do século XX. Ao arrepio do que defendia Clausewitz: “Quem conquista prefere a paz; é sempre melhor invadir sem encontrar resistência.” 
– As desconfianças na Europa e os confrontos além-mar, nos impérios coloniais, foram agravando as tensões e conduziram a um aumento dos efetivos miliares e a uma corrida aos armamentos, quer terrestres, quer navais. A estrutura de forças começou a ser desproporcionada face à realidade e todas as Forças Armadas dos futuros beligerantes, sobretudo a Alemanha, planearam estratégias ofensivas para uma guerra rápida e curta. Por exemplo, a Inglaterra preocupava-se particularmente com o aumento do poderio naval alemão, que, segundo a Royal Navy, iria atingir capacidades para enfrentar as inglesas em 1917. 
– As causas económicas foram igualmente determinantes, já que nelas confluíam os desejos imperiais, a afirmação nacional (hoje diríamos assertiva), o reforço das capacidades militares, a necessidade de manter o crescimento do nível de vida das populações, o acesso às matérias-primas e os interesses geopolíticos da época. 
– A mudança das sociedades, sobretudo em Inglaterra, em França e na Alemanha, na sequência da industrialização e da urbanização, influenciaram e pesaram nos processos de decisão política e nas mobilizações militares. Aliás, esses novos figurinos sociais iriam acentuar-se no decurso da guerra e seriam irreversíveis no futuro, apesar dos retrocessos da Revolução Bolchevique. 
– Os interesses dos Estados foram-se polarizando nas elites político-militares, mas também nas incipientes opiniões públicas, aparecendo a guerra como a solução para os problemas. 
– Os governos começaram a pesar os prós e os contras de um conflito em função dos seus objetivos e interesses nacionais, ou da perceção que tinham desses interesses. 
– Como escreveu Marc Ferro: “Cada um pressentia que estava ameaçado na sua própria existência pelo inimigo hereditário e para todos o conflito obedecia a uma espécie de rito fatal” (La Grande Guerre, 1914-1918, Gallimard, 1969). 
– As posições dos diferentes países eram tributárias de situações anteriores ou de interesses polarizados: 
  • A França desejava, acima de tudo, recuperar a Alsácia e a Lorena, que a Alemanha anexara em 1875; 
  • A Inglaterra queria manter o império e o controlo dos mares, e impedir a Alemanha – que se assumia já como a segunda potência económica europeia – de dominar a Europa e sair para a África;
  • A Rússia queria sobretudo assegurar, pelo Bósforo, o acesso às “águas quentes”, anular o império otomano e garantir que a Áustria não controlasse os Balcãs; 
  • A Alemanha, com uma indústria cada vez mais forte e uma população animada por um patriotismo profundo, queria garantir influência nos mercados na Europa e no mundo, a que se opunham a França, a Inglaterra e de outra forma a Rússia; e pela parte do imperador Guilherme II, que a partir de 1891 abandonou a política de Bismark e anunciou a Weltpolitik como uma potência à escala mundial;
  • O império austro-húngaro, um puzzle criado no Congresso de Viena – e onde era sobretudo a máquina administrativa que mantinha a coesão entre populações e nacionalidades distintas – procurava manter presença nos Balcãs e no que é hoje o norte da Itália, e garantir a estabilidade do império; 
  • O reforço do nacionalismo nos Balcãs e também noutras regiões da Europa seria uma das causas do conflito, bem como as movimentações sociais que iriam dar origem à Revolução de 1917 na Rússia;
  • Os outros países, entre os quais Portugal, não tinham expressão ou capacidade de influenciar as decisões dos que foram em 1914 os Estados beligerantes. Apenas a Itália, que faria parte da Tripla Aliança, mas ficaria neutra em 1914, queria recuperar território e população de fala italiana do império austríaco, ter liberdade no Mediterrâneo, no Magrebe e uma palavra em África. 
Refira-se, sucintamente, a importância dos processos de decisão política, sobretudo em política externa, na Europa, antes de 1914. 
Embora os principais Estados já dispusessem de serviços diplomáticos como hoje os entendemos, apenas em França e em Inglaterra os Ministérios dos Negócios Estrangeiros tinham influência no processo de tomada de decisões. Considerando a importância do parlamento (no caso inglês) e do presidente da República (em França), a colaboração institucional funcionava. 
Já no caso dos impérios alemão, austro-húngaro e russo, o processo de decisão tinha em conta a diplomacia, mas estava polarizado no vértice do Estado, na figura dos imperadores. Como refere um historiador que analisou este tema (Christopher Clark, "Os Sonâmbulos"), «essa instituição antiga e esplendorosa que ligava a sorte de grandes Estados aos caprichos da biologia humana». 
A diplomacia passava, assim, para um segundo plano, embora fosse mantendo a rotina das funções, em detrimento das capacidades de análise e de influência. 
Nos anos que antecederam a Guerra de 1914-1918, a Europa e o mundo foram assistindo e participando em conflitos localizados e secundários que exprimiam de outra forma os objetivos e os interesses dos atores que se iriam envolver na Grande Guerra. 
Fora da Europa, a guerra entre os Estados Unidos e a Espanha de 1898, que levou à ocupação de Cuba e depois das Filipinas, ditou o fim do império espanhol. Os efeitos das guerras do Japão com a China e com a Rússia, em 1905, prolongar-se-iam até 1940. O primeiro confronto entre ingleses e alemães seria em África, durante a Guerra dos Bóeres, em 1899, onde algumas das táticas militares de 1914-1918 teriam sido iniciadas. 
Na vizinhança europeia, sentiam-se duas tentativas alemãs de controlar Marrocos e de condicionar a França em 1905 e 1911, a invasão italiana do império otomano, em 1911, com a conquista da Líbia e a anexação da Bósnia pela Áustria, em 1908. 
Mais graves foram os conflitos nos Balcãs e que seriam a causa imediata da Guerra de 1914. Entre 1912 e 1913, os ataques contra o império otomano, e depois contra a Bulgária, viriam a modificar o mapa da região, mas, sobretudo, a exacerbar os nacionalismos internos e a atrair as apetências externas. 
O perímetro desenhado no Congresso de Viena já não garantia a paz na Europa nem os conflitos entre europeus, no resto do mundo. Nos Balcãs, em Sarajevo, o atentado contra o principal herdeiro do império austro-húngaro, em 28 de junho de 1914, é considerado a causa direta da Grande Guerra.
Apesar das circunstâncias, houve diversas tentativas no plano diplomático e político para tentar travar a guerra. A Alemanha faria pressão sobre o império austro-húngaro e Paris sobre São Petersburgo, no quadro das alianças construídas. E os ingleses propuseram uma conferência internacional como mecanismo diplomático para aliviar as tensões. 
Provavelmente, foram tentativas com menos convicção, porque todos os atores pensaram que o conflito era incontornável. Mas recusaram, o que ressalta a intransigência alemã e austro-húngara e a vontade em prosseguir o caminho da guerra. 
Contudo, no plano diplomático, nas vésperas da guerra, “a política externa já está dominada pela situação militar” (Renovin, Histoire des Relations Internationales, Tomo III, p. 317). A perspetiva da guerra condicionava a diplomacia, as finanças, a generalidade das administrações das grandes potências. A guerra era um objetivo político. E os governos, através dos meios diplomáticos e militares, já tinham iniciado políticas de compromisso, por meio de negociações nem sempre fáceis para manter alguma coesão nos blocos, no que chamamos hoje o equilíbrio dos interesses dos países das coligações. Interesses políticos, diplomáticos, mas sobretudo militares. Esta influência militar na decisão política e diplomática é habitual nas vésperas e no início dos conflitos e começa a diluir-se quando os decisores adquirem a perceção de que as soluções vão ser políticas. 
Portugal não tinha voz internacional neste tabuleiro e o seu único objetivo nesses dias foi encostar-se à Inglaterra. E preocuparse com Espanha, como sempre. 
Alguns autores (ver por todos Marc Ferro) sublinham, ainda a justo título, a oposição de alguns dirigentes socialistas europeus à guerra: Jean Jaurès, que viria a ser assassinado antes do conflito, Rosa Luxemburg na Alemanha e a oposição trabalhista em Londres. 
Realizou-se, mesmo, uma reunião do Comité da II Internacional Socialista em Bruxelas, em finais de julho, onde se procuraram soluções diplomáticas. Porém, como diz Marc Ferro, “discutiram mas não atuaram”. 
O ângulo nacionalista superou as convicções ideológicas em França e na Alemanha. E os trabalhistas ingleses entrariam no governo em 1916, em plena guerra. 
Qual era a situação em Portugal? Este tema é objeto de outro tema neste colóquio e não devo, por isso, elaborar sobre ele. Deixo apenas duas constatações:
  • Em política interna, a instabilidade que pautou o início da República; 
  • Em política externa, dificuldades de reconhecimento de um novo regime; dependência da Inglaterra; receios de Espanha. 
Note-se que, desde a implantação da República até ao início da guerra, Portugal teve sete presidentes do ministério (como então se chamava ao chefe do governo) e outros onze durante a guerra. Passaram por Belém, até 1914, dois presidentes da República e mais seis durante a guerra. 
O número aumenta nos dois ministérios que nos interessam: 
  • Dez ministros do Estrangeiro de 1910 a 1914 e outros 23 durante a guerra; 
  • Seis ministros da Guerra até 1914 e mais 13 durante a guerra. 
Tudo isso tornou difusa e volátil a decisão e a interlocução em política externa e política de defesa, especialmente quando a política externa era toda elaborada e executada em função de relações bilaterais, dada a inexistência de estruturas europeias multilaterais. Como escreveu Carneiro de Moura no seu livro Portugal e o Tratado de Paz, “andávamos demasiado presos à luta íntima das nossas fatais paixões” (Depois da Guerra, Portugal e o Tratado de Paz, Lisboa 1918, p. 28). 
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Freire de Andrade, dois meses depois do início do conflito, escreveu ao embaixador de Londres (cito): 
«Portugal está pouco preparado para a guerra, pois o seu Exército e a Marinha dispõem de poucos recursos. Não se corrigem em pouco tempo deficiências de muitos anos. Financeiramente também a nossa situação não é brilhante, não temos recursos que são indispensáveis em ocasião de crise sobretudo para comprar os navios e o material de guerra que tão necessários nos são em caso de guerra» (Portugal na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Tomo I, MNE, Lisboa 1997, p. 66-68).
Portugal entra na guerra por várias razões que nos serão, certamente, adiantadas noutro dos temas deste colóquio. Os historiadores concordam geralmente nas três teses – a colonial, a europeia-peninsular e a da legitimação da República – que podem ser convergentes. 
Terminada a guerra, só ganharia a vertente colonial, o que pode explicar o que se seguiu. Aliás, é curiosa a observação de Norman Stone, no seu livro Primeira Guerra Mundial (p. 22): “No final do imperialismo europeu, na década de 1970, o país mais pobre do continente era Portugal, que possuía um enorme império africano, e os mais ricos a Suécia, que abandonara há muito a sua única colónia nas Caraíbas, e a Suíça, que nunca tivera império.” 
Voltando à Europa, é interessante ver que a estratificação em blocos veio a refletir-se na forma como a guerra se foi estendendo depois de 1914. O conflito começou com cinco beligerantes: as potências centrais da Tripla Aliança, a Alemanha e o império austro-húngaro; e do outro lado, a Entente Cordiale, os aliados, francês, inglês e russo. A Itália, em 1914, declarou a neutralidade e só entraria na guerra no ano seguinte. Depois viriam outros países, que iriam mundializar a guerra: o Japão com os aliados, a Turquia e a Bulgária com a Tripla Aliança, a Itália em 1915 e Portugal e a Roménia em 1916. E, finalmente, os Estados Unidos da América em 1917. Os outros europeus, incluindo a Espanha, permaneceram neutros. 
A guerra não viria a interromper a diplomacia, embora a única verdadeira tentativa de paz fosse uma iniciativa dos Estados Unidos da América, antes da sua entrada na guerra em 1917, menos de um mês após a queda do regime de czares na Rússia. 
O que surpreende na ação diplomática durante os primeiros meses da guerra, além do cuidado em atrair beligerantes pela França e pela Alemanha, dos esforços de contenção do conflito pela Inglaterra e dos equilíbrios de alguns para manter a neutralidade, é o claro desígnio de começar a pensar nas vantagens que se retirariam no final do conflito. 
Em 1914, os dois lados acreditavam que a guerra seria rápida, circunscrita à Europa e limitada aos efetivos militares, como tinha sucedido até então nos conflitos europeus. A mundialização, os efeitos colaterais nas populações civis, o uso militar das novas tecnologias e a própria duração do conflito foram fatores que foram sendo acrescentados pelos decisores políticos e militares. Mas não eram previsíveis quando das mobilizações, única fórmula de dissuasão então existente, nem quando do início do conflito. 
Apesar disso, as diferentes diplomacias, com o modelo do Congresso de Viena presente, iniciam análises e consultas sobre a melhor forma de projetar os interesses nacionais e de recolher vantagens territoriais, económicas, estratégicas e militares no final da guerra. Mais do que pensar numa paz negociada, como viria a suceder em 1939-1945, o paradigma das diferentes diplomacias europeias foi traçar os frios cenários do pós-guerra. 
O desenho do Tratado de Versailles foi iniciado em 1914. Seria outro se a Alemanha tivesse ganhado. Mas isso é o outro lado da História, ou melhor, é outra história.


António Martins da Cruz, Comunicação in Colóquio “Portugal e a I Guerra Mundial”, 7 de outubro de 2014, Assembleia da República, Lisboa, pp. 9-15 (fonte)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Call for papers da revista Nação e Defesa

«A Grande Guerra ou Primeira Guerra Mundial (1914-1918) é consequência de rivalidades cruzadas entre as principais potências, quer na Europa, quer no resto do mundo, de carácter variado (ideológico, político, económico, imperial).

Interessa compreender e analisar, de forma crítica e inovadora, a situação política e estratégica de Portugal, no dealbar do século XX e como esta influenciou a decisão de intervir na contenda mundial em curso entre 1914 e 1918.

Neste contexto, convidamos todos os interessados a submeterem um artigo que se enquadre no tema genérico “Portugal na Grande Guerra – a Posição de Portugal no Mundo”.

Os artigos deverão ser enviados até 7 de Julho de 2014 para idn.publicacoes@defesa.pt »

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Rússia na véspera da Guerra

«Em 2014, a população russa comemora centésimo aniversário do início da Primeira Guerra Mundial. Como o país passou os primeiros sete meses do ano antes do começo das atividades militares? O historiador Lev Lurie responde a esta pergunta.(...).». Continua aqui A vida na Rússia antes da Primeira Guerra Mundial | Gazeta Russa

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Índia e a memória relutante das colónias. A I Guerra como conflito de impérios coloniais

Num dos anteriores posts, falámos (ainda que ao de leve) na Nova Zelândia. A I Guerra, sendo Mundial (sim, ainda há quem ache que não foi), envolveu tropas de países de todos os continentes, não só por via de um cenário intrincado de alianças entre nações soberanas, mas também porque a I Guerra foi sobretudo um conflito entre potências coloniais, que mobilizaram todas as suas possessões imperiais para o esforço de guerra. 

Soldados indianos na Batalha do Somme, em julho de 1916.
Foto da coleção do Imperial War Museums (fonte)
Isto significa, por exemplo, que a Grã Bretanha tenha recorrido a contingentes ultramarinos dos quatro cantos do seu Império: Nova Zelândia, Austrália, Canadá, África do Sul e, com grande destaque em termos de tropas e baixas, a Índia. Em muitos aspetos estes países eram já autónomos, mas de uma forma ou de outra pertenciam à esfera de influência britânica, que mantinha controle, por exemplo, das respetivas políticas externas. Ainda hoje se mantêm nessa esfera de influência, constituindo a espinha dorsal da Commonwealth. Mas, sendo colónias, a sua importância não pode ser subestimada.

O caráter "imperial" desta singular guerra fica também patente, naturalmente, no envolvimento das principais colónias africanas portuguesas, Moçambique e Angola. Estes territórios foram palco de muitas batalhas e escaramuças com as forças alemãs, que procuravam manter e expandir as suas possessões africanas, sobretudo o Tanganica e o Sudoeste Africano - sendo de referir que Portugal também não se fez rogado na tentativa de manter e expandir, abrindo hostilidades no norte de Moçambique, com uma incursão ao Tanganica. Do lado português, estima-se que combateram cerca de 12 mil soldados africanos indígenas*: «O contingente português atingiu números próximos dos 20000 homens, entre as forças desembarcadas e o recrutamento local, com um efectivo, grosso modo , de 12000 africanos (12) sem contabilizar os aproximadamente 90000 carregadores (13).» (fonte)

O caso da Índia é particularmente importante no quadro global da guerra, quanto mais não seja, pela escala das forças nativas utilizadas e pela dimensão das baixas. E neste caso, ao contrário dos africanos sob domínio português, que serviram o exército português nos seus territórios natais, as tropas indianas serviram em locais tão distantes e inóspitos como o Médio Oriente e a Turquia (sobretudo no célebre estreito de Dardanelos, palco da desastrosa Campanha de Galípoli) contra o Império Otomano, bem como no Egito, África Oriental e nas trincheiras geladas e lamacentas do Norte da Europa. No total, cerca de um milhão e trezentos mil indianos foram mobilizados para o esforço de guerra e as Forças Expedicionárias Índianas sofreriam 74187 baixas mortais, a que se somam mais de 69 mil feridos (a Wikipedia refere um número ligeiramente inferior de feridos).

E no entanto, sendo este um episódio marcante da sua História recente, os indianos parecem não querer falar muito acerca do tema. Tema que em círculos nacionalistas é até algo embaraçoso. Do que tenho percebido, de resto, é um traço comum às ex-colónias ultramarinas, sejam portuguesas, sejam inglesas ou francesas: à exceção das ex-colónias com população de origem europeia/branca - Nova Zelândia, Canadá ou Austrália, que celebram e estudam com grande solenidade a sua participação neste conflito - a I Guerra é regra geral uma memória reprimida. Dá a ideia de que, para africanos ou asiáticos, a I Guerra foi um assunto de brancos, para o qual foram arrastados sem honra nem vontade. A I Guerra está, assim, intimamente associada a um passado de subjugação colonial, que não atrai as novas gerações, muito menos os espíritos mais nacionalistas.

O caso da Índia será, desta forma, paradigmático, não andando muito longe, julgamos, do que se poderia dizer hoje em dia acerca de Angola ou Moçambique - numa breve pesquisa, não encontrei, nem num nem noutro país, qualquer menção ao centenário da Guerra ou a eventuais eventos que o recordem, ou sequer homenagens aos soldados africanos mortos no conflito, é o silêncio absoluto. Em relação à Índia, então, como é sublinhado no artigo do The Times of India abaixo linkado: «For a hundred years, the story of this force had been nearly forgotten — the narrative of World War I has so far been predominantly white. The Indian story had to be told because it rarely happens that one nation's war is fought by another's armies. But not only did Britain downplay the contribution of these men but India, too, chose to ignore them. In fact, the nationalist voices in free India actively disowned parts of this history.(...)».

E no entanto, as coisas parecem estar a mudar, pelo menos na Índia, que recomeça a interessar-se por este evento brutal da sua história, e começa a investigar e a organizar de forma séria os arquivos dessas datas. Sobretudo pela mão do Centre for Armed Forces Historical Research, em Nova Deli, ou por instituições inglesas como o Brighton Museum & Art Gallery.

Soldado moçambicano da I Guerra Mundial (fonte)
«Sadly, when the survivors returned home, no hero's welcome awaited them. India had given full military, political and economic support (the country had gifted 100 million pounds to fund the war) to Britain anticipating dominion status and home rule in return. But once the war ended, the British were in no hurry to appease India. So, the returning army seemed to Indians like the Empire's instrument of oppression. But now, there is hope that the Indian soldier will get his due place in history.»

No contexto do mundo lusófono, será então curioso perceber o que é que Angola e Moçambique estão fazer (ou não) relativamente à memória da sua participação na I Guerra Mundial, e tendo em conta o pesado balanço - «(...) Mas o teatro de guerra em África foi o mais mortífero para os portugueses - 4811 militares morreram em Moçambique. No rescaldo da Grande Guerra, entre mortos, feridos e desaparecidos "36% dos mobilizados foram baixas", sublinha o tenente-general Mário de Oliveira Cardoso.» (fonte). 

Muitas daquelas baixas foram certamente soldados e carregadores locais, que constituíam grande parte das forças sob comando português, sobretudo oriundas de Moçambique, formadas em Companhias Indígenas Expedicionárias que foram também enviadas para Angola, Timor e Índia. Em tempo de centenário, e apesar de constituir uma memória exógena (anterior à nacionalidade), será, em suma, que o soldado africano, espécie de "carne para canhão" esquecida, também merecerá o seu «due place in history?»...


World War I, the India story retold - Times Of India


*A este respeito há algumas discrepâncias entre fontes, sendo que de acordo com números da História da Primeira República Portuguesa, a I Guerra em África envolveu ao longo dos quatro anos, cerca de 30 mil efetivos portugueses, mais de 10 mil dos quais nativos africanos. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

África 1914-1918. A Grande Guerra esquecida

Como já foi referido aqui, embora a Alemanha só tivesse declarado guerra a Portugal em Fevereiro de 1916,em reação ao apresamento dos navios alemães nos portos portugueses, e o Corpo Expedicionário Português só tenha marchado para as trincheiras do norte de França e da Bélgica um ano depois, o nosso país já tinha entrado na Grande Guerra logo em 1914. 

É certo que, curiosamente, esta faceta da participação portuguesa na Guerra não é tão mediatizada ou estudada como a saga do CEP na Flandres, mas o exército português já combatia em 1914, de facto e com muito sangue suor e lágrimas, na frente africana. Em rigor, em várias frentes africanas, travando batalhas com tropas germânicas junto às fronteiras de Moçambique e Angola, onde o Império do Kaiser detinha as suas possessões coloniais (o Tanganica e o Sudoeste Africano Alemão). Foi no palco africano, aliás, que se registou a maioria das baixas nas tropas portuguesas no contexto da I Guerra Mundial - de cerca de dez mil mortos militares portugueses estimados, "apenas" cerca de um quarto terá tombado nos campos europeus. Isto é, também aqui os alemães esmagaram as forças portuguesas. Em África e na Europa, verificamos outra constante: a impreparação portuguesa, quer para doenças quer para a guerra.

No entanto, como em 1961, também em 1914 fomos rapidamente e em força para as principais colónias. Em Setembro de 1914, na sequência de um "raid" alemão a um posto fronteiriço no norte de Moçambique, partiu de Lisboa o primeiro contingente especial de 1527 soldados (grande parte deles vítimas pouco tempo depois por viroses tropicais). Em Outubro, seguiu para Angola uma segunda força expedicionária, sob o comando de Alves Roçadas (mais tarde general e último comandante do CEP no palco Europeu), com 1600 homens. O garboso Roçadas foi clamorosamente derrotado por uma força alemã numericamente inferior em dezembro de 1914 e teve logo depois que conter a revolta da população autóctone, galvanizada pelo desaire português.

Embarque de tropas para Angola (1914)


Em Moçambique o cenário não foi mais animador e, além das doenças e das sublevações dos locais, o exército português ia-se arrastando numa campanha dolorosa:


«Em Novembro de 1915 chegou a Moçambique uma nova força de 1543 homens, comandados por Moura Mendes. Essa 2ª força tinha como finalidade recuperar a ilha de Quionga, mas também devido a desorganização idêntica à da primeira força, só em 4 meses perdeu, por doença, metade dos efectivos. Só em Abril de 1916 a pequena ilha de Quionga foi recuperada.
Em finais de Junho de 1916 chega a Moçambique a 3ª força enviada de Portugal, constituída por 4642 homens comandados por Ferreira Gil, com a finalidade de passar o Rovuma e atacar as tropas alemães ao mesmo tempo que estas eram atacadas no Tanganica por forças inglesas, da Rodésia, da União Sul-Africana, do Quénia, do Congo Belga e da Índia. Esta 3ª força consegue passar o Rovuma e conquistar Nevala mas, logo de seguida, é derrotada no combate de Nevala, tendo que retirar novamente para Moçambique.
Em 1917 Portugal envia a 4ª força para Moçambique, esta constituída por 9786 homens e comandada por Sousa Rosa.
A Alemanha tinha na África Oriental, uma pequena força de 4000 askaris e 305 oficiais europeus, comandados pelo general Lettow Worbeck.
Este general alemão conseguiu sempre resistir aos ataques das forças inglesas, apesar de estas serem em número muito superior. Isto só foi possível devido a este general ter utilizado uma nova forma de guerra (guerrilha), não lhe interessando manter ou conquistar posições, mas sim manter o inimigo sempre ocupado, de modo que este não pudesse libertar soldados para enviar de volta à Europa.
Em Novembro de 1917, Lettow Worbeck passa o Rovuma e derrota as tropas portuguesas em Negomano, e percorre Moçambique sempre fugindo e derrotando as tropas (inglesas e portuguesas) que encontrava pelo caminho e provocando a revolta das populações locais contra os portugueses. Este general alemão acabou por voltar ao Tanganica.
Com o final da guerra na Europa, o exército alemão que se encontrava nessa altura na Rodésia, acabou por se render apesar de nunca ter sido derrotado.
Para Portugal ficaram, além das grandes derrotas militares, as revoltas das populações locais, que demoraram a ser reprimidas.» (fonte)

Como vimos, o envolvimento bélico português na Grande Guerra começou cedo e também começou mal. E como diz o povo, o que nasce mal... Seja como for, embora seja pouco ou nada gloriosa, é uma parte da história que merece ser mais e melhor contada. Uma das poucas obras de referência sobre este tema é «A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa - Angola e Moçambique (1914-1918)» (Edição Cosmos/Instituto da Defesa Nacional, Janeiro de 2005), do historiador militar, Marco Fortunato Arrifes.


Infelizmente já não se encontra no circuito comercial, mas é possível encontrá-lo na generalidade das boas bibliotecas, sobretudo universitárias (ou talvez esteja ainda disponível aqui). Sobre este livro, permitimo-nos reproduzir um excerto de um artigo do historiador francês René Pélissier, autor que se tem debruçado particularmente sobre a história colonial e militar portuguesa. O artigo intitula-se "Sobreviver num mar de tinta", debruça-se sobre várias publicações da altura, uma delas a de Marco Arrifes, que merece o devido elogio e serve de pretexto para o historiador gaulês discorrer acerca desta guerra semi-esquecida:


«(...) Regressemos a um tema essencialmente lusófono com "A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa", da autoria de um historiador oficial do Exército. O tema é um dos mais mal tratados pela historiografia portuguesa e, no entanto — caso único —, ao enviar dezenas de milhares de soldados metropolitanos para a África em 1914-1918, Portugal inverteu o movimento que mobilizou as tropas coloniais e imperiais no sentido de estas virem defender as metrópoles. Esta singularidade devia chamar a atenção dos historiadores estrangeiros especialistas da primeira Grande Guerra. Mas, como geralmente ignoram — salvo recentes excepções — o que fazia Portugal em Angola e em Moçambique, eles mantém um prudente silêncio sobre este assunto. Isto quer dizer que, se lessem este livro — caso dominassem a língua portuguesa —, poderiam, enfim, ter uma ideia clara das operações militares portuguesas nas suas ex-colónias? Não, no caso de Angola. Não, pois o autor não procura dar uma relação pormenorizada das actividades bélicas no terreno. O que lhe interessa são o contexto político, as infra-estruturas, a organização da máquina militar e, o que é completamente inovador, a vida quotidiana dos soldados, o soldo, a sexualidade, a logística, as relações entre soldados africanos e europeus. Tudo isto é útil e interessante, mas um leitor profano que goste de saber o que se passou na batalha de Môngua — a maior vitória (1915) dos portugueses em África — terá de procurar noutro sítio, nomeadamente no relatório oficial publicado, ou de recorrer aos testemunhos de participantes. Ou talvez, porque mais acessível, à obra de René Pélissier Les campagnes coloniales du Portugal (1844-1941), Edições Pygmalion/Flammarion, Paris, 2004.
Em compensação, Marco Fortunato Arrifes empregou muita energia a tentar encontrar estatísticas fiáveis sobre os efectivos e as perdas portugueses. Existe uma tal quantidade de números contraditórios que o leitor tem de resignar-se com aproximações — como para a guerra de 1961 a 1974 — quanto aos efectivos metropolitanos verdadeiramente enviados para a África (de 30 000 a 31 600, mais ou menos, entre 1914 e 1918). Trata-se de um esforço importante para um país como Portugal durante a primeira Grande Guerra. A bibliografia fornecida contém algumas entradas raras, mas não retoma integralmente as entradas indicadas nas notas. Em resumo, um trabalho original, sério, sem exageros nacionalistas. Falta aprofundar questões importantes, mas é já um grande passo em frente.
Outros tempos, outros hábitos. O que é certo é que os soldados de 1914-1918 não regressaram em peregrinação organizada, nos anos 1930-1950, aos locais das suas actividades africanas.
Ora, assistimos, desde há uns anos para cá, a uma espécie de turismo sentimental relativamente à Guiné e a Moçambique. Nada em relação a Angola? Antigos combatentes viajam, em grupo, na direcção da sua juventude, dos seus medos, dos seus sofrimentos, das guarnições abandonadas há mais de trinta anos. (...)», in Revista Análise Social, vol. XL (177), 2005, 925-945 (artigo integral, fonte).

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

La Lys, ícone do desastre. Perspetivas críticas.

A Batalha de La Lys é, de todas as que marcaram a I Guerra Mundial, a que ficou mais profundamente gravada no imaginário português. No anterior post falou-se por alto de incompetência, e La Lys (designação do ribeiro belga perto do qual decorreu o confronto entre as divisões luso-britânicas e as tropas germânicas), embora não seja assim tão líquida a importância da incompetência para o desfecho trágico, é também um ícone da impreparação e ineficiência, quer do poder político em Lisboa, quer do Corpo Expedicionário Português (CEP), assolado já por doenças, deserções, falta de comando e um ambiente geral de grande desmoralização. 

Na madrugada do dia 9 de Abril de 1918, os alemães atacaram massivamente as posições portuguesas, chefiadas pelo General Gomes da Costa (com cerca de quinze mil soldados minimamente operacionais nas primeiras linhas), que foram rapidamente cilindradas pelo poderio vastamente superior do inimigo: «55 000 soldados do VI Exército alemão, agrupados em oito divisões sob o comando do general Ferdinand von Quast (1850-1934) atacaram, seguindo o plano da ofensiva que Erich Ludendorff concebeu com o objectivo de tomar Calais e Boulogne-sur-Mer» (fonte)

Prisioneiros portugueses do CEP num campo alemão, logo após a derrota de La Lys (imagem do Arquivo Federal Alemão, fonte)


A Wikipedia diz que esta batalha constituiu «a maior catástrofe militar portuguesa depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578» e não andará longe da verdade. O rescaldo da batalha registou do lado português cerca de 7500 baixas, entre mortos (cerca de mil, mais de 300 oficiais), feridos e prisioneiros*. Embora haja quem prefira destacar que as tropas portuguesas conseguiram resistir 24 horas ao assalto alemão, é inapelável que a derrota foi clamorosa e que só se salvou a heroicidade do Soldado Milhões. É certo e justo destacar, mesmo assim, que o desaíre português teve atenuantes, desde logo a inferioridade numérica e de capacidade de fogo avassaladora. Mas mesmo quem o realce, não esconde as fragilidades:


«(...) As tropas estavam em França, mas a desmoralização era enorme. O número de oficiais que se encontravam nas duas divisões portuguesas estava muito abaixo do minimo necessário. As tropas portuguesas estavam desenquadradas, e faltavam-lhes oficiais para enquadrar as tropas e comanda-las convenientemente. O conceito de carne para canhão, em que se enviam homens uns contra os outros, ainda era normalmente aceite.

Mas a baixa política e a irresponsabilidade dos políticos da Primeira República , não deixou de ensombrar as tropas. Depois de se enviar o CEP, não se sabia exactamente o que fazer com ele. Além disso, Portugal não tinha dinheiro para organizar as duas divisões e estas tiveram que ser armadas pela Inglaterra, e também não tinha navios para enviar tropas o que fazia o país depender da Inglaterra.

Por outro lado os militares Britânicos, e Franceses, também não sabiam como responder aos desafios da guerra moderna. Lutavam com as tácticas de Napoleão, que implicavam o combate a curta distância, mas viam-se perante a primeira guerra industrial do mundo. A solução foi a conhecida, uma guerra de desgaste, em que ganha quem ficar vivo no fim.

Muitos dos comandos das forças portuguesas, também pautavam pelo desleixo e pela falta de capacidade. Uma tropa analfabeta, comandada por um punhado de oficiais, grande parte deles sem qualificações e apenas medianamente alfabetizados. Oficiais crentes no valor do soldado português, mas sem entender que o mundo muda e que as guerras, já em 1918, estavam a ser ganhas pela capacidade industrial, e pela qualidade técnica dos comandos militares.». (in Área Militar)

Portugueses nas trincheiras da Flandres
Ainda na perspetiva crítica, e também em jeito de "provocação" para reflexão inquieta(nte), achamos pertinente reproduzir aqui um artigo interessante e bem escrito de Luís Bonifácio, intitulado «O desastre de La lys - Portugal na I Grande Guerra», publicado num website comemorativo do centenário da República e que traduz um pouco da fama infame de La Lys que perdura na memória nacional: 

«Há 91 anos os soldados e sargentos que se encontravam nas trincheiras da Flandres, desataram a correr assim que viram os soldados do Exército Imperial Alemão a meio da terra de ninguém. Os seus oficiais, aqueles que ainda não haviam desertado a coberto de uma qualquer licença, já haviam há muito abandonado os seus confortáveis quartéis.

Para trás ficaram 7 000 baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros.

Ao fim do dia apenas restou a vergonha de todo um corpo de exército relegado para trabalhos braçais na retaguarda até ao dia 11 de Novembro.

O desastre de La lys não foi nenhuma novidade. Estava anunciado havia muito. Mais precisamente desde que, em 1916 o governo de Afonso Costa, acossado por todos os lados, declara guerra à Alemanha, na tentativa de inventar um inimigo externo que desviasse as atenções dos problemas internos.

Nesse dia ficou traçado o destino de milhares de Portugueses: um exército depauperado, comandado por oficiais incompetentes, cuja promoção dependia das simpatias políticas, iniciou em Tancos uma preparação para uma guerra inexistente, chamada pomposamente de “Milagre de Tancos”. Esse “Milagre”, vendido pelos jacobinos republicanos à opinião pública, como os milagres da Igreja do Reino de Deus, terminou assim que os membros do Corpo Expedicionário Português (CEP), cheios de Febre Tifóide desembarcaram em Brest, obrigando os aliados a confiná-los em quarentena afim de evitar uma epidemia catastrófica. O horror do aliados aumentou ainda mais, quando descobriram que todos os militares dos regimentos de metralhadoras, desconheciam em absoluto o funcionamento da metralhadora Lewis, o padrão dos aliados, e que os artilheiros ficavam embasbacados com a visão de uma peça de grande calibre.

Nos campos da Flandres teve de ser realizado novamente e a partir do zero, o treino para a guerra de trincheiras.

Sem meios para assistir o exército em França (Portugal apenas tinha dois velhos navios de transporte e nenhum de escolta), e dependente da boa vontade e paciência Britânica, o CEP ficou entregue à sua sorte, sem material nem reforços assim que começou o transporte do exército Norte-Americano para a Europa, fazendo com que os pobres praças Portugueses apodrecessem na lama e frio das trincheiras durante oito meses, quando os seus aliados e inimigos realizavam turnos de 30 dias.

Os oficias, esses, estiveram sempre bem instalados, atrás de secretárias, sempre com licenças para passeatas em Paris-Plage. Aqueles com boas ligações políticas conseguiam uma licença para visitar a família em Portugal, o que sempre significava uma viagem de ida sem volta.

Não admira por isso que, na madrugada de 9 de Abril de 1918, os praças Portugueses tenham atirado as espingardas para o chão, e fugido.

Foi a corrida pelas suas vidas. Foi a única coisa honesta que podiam ter feito.

Fugir a sete pés era a única coisa que uma República, que pouco ou nada se importou com eles, merecia» (fonte)



* Há autores que consideram estes números bastante inflacionados, apontando para baixas portuguesas em La Lys bem mais baixas, da ordem das poucas centenas de mortos. É, pelo menos, a conclusão da historiadora Isabel Pestana Marques, autora da obra «Das trincheiras com saudade» (a Esfera dos Livros, 2008). Em declarações à agência Lusa, por ocasião do lançamento do seu livro, sublinhou que «Portugal participou na I Guerra (1914-1918) fundamentalmente para «legitimação da República e para o seu prestígio, para procurar fazer esquecer internacionalmente o regicídio (1908) e unificar os portugueses pela causa da guerra, o que falhou». A participação portuguesa está, na avaliação da historiadora, muito mistificada, desde logo pela mortandade que afirma não ter não existido e pelo mito do «soldado desconhecido». Segundo a historiadora, morreram dois mil militares portugueses na Europa, 300 deles na batalha de La Lys, muito abaixo dos números divulgados, e seis mil foram feitos prisioneiros. «Inflacionámos os números para obtermos mais dinheiro das indemnizações de guerra», indicou a investigadora.» (fonte