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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A maior catástrofe que o mundo já viu e a questão da culpa. Quem foi responsável pela guerra? Um texto importante. Novos livros.

«June 28, 1914, Sarajevo, Bosnia. The Archduke Franz Ferdinand, heir to the multinational Habsburg realms, resplendent in the dress uniform of an Austrian cavalry general, but also absurd in his plumed headdress, was shot at close range by Gavrilo Princip, a local student dropout obsessed with the Serbian national cause. Sarajevo was one of history’s most purple passages: there was the drama of bungled security and hamfisted conspiracy; spectacle and gore; the play of intention and chance; the clash of generations and civilizations, of the old monarchical Europe and the modern terrorist cell. 

But of course the Sarajevo assassination captivates posterity for its consequences. Piqued in its prestige and fearful of the threat to its status as a great power by subversion fanned from Serbia, the Austro-Hungarian government delivered an ultimatum to its obstreperous little Balkan neighbor, demanding a say in the management of its internal affairs. 

Russia stepped in to protect its Serbian clients; the Germans supported their Austrian allies; the French marched to fulfill their treaty obligations to Russia; Great Britain honored its commitment to come to the aid of France. Within five weeks a great war had broken out. At the very least, this is a gripping tale. Sean McMeekin’s chronicle of these weeks in July 1914: Countdown to War is almost impossible to put down.

Thus was unleashed the calamitous conflict that, more than any other series of events, has shaped the world ever since; without it we can doubt that communism would have taken hold in Russia, fascism in Italy, and Nazism in Germany, or that global empires would have disintegrated so rapidly and so chaotically. A century on we still search for its causes, and very often, if possible, for people to blame. In the immediate aftermath of war that seemed clear to many: Germany, and especially its leaders, had been responsible; the Austrians too, as accomplices, in lesser degree. The Treaty of Versailles made this official, as the victorious powers there spoke of a “war imposed upon them by the aggression of Germany and her allies.” This was the notorious guilt clause used to justify severe “reparation” payments stretching far into the future. It was a widespread view, and ordinary Germans might have shared it if the vanquishers had not gone for the premise of collective responsibility, which undermined attempts to build a fresh German regime untainted by the past. (...).»

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

"Quem vive?". A Grande Guerra em Moçambique. Diários de campanha

"Kináni (Quem vive?)? Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918", Cardoso Mirão, Lisboa, Livros Horizonte, 2001

Esta é a narrativa da campanha da I Guerra Mundial em Moçambique, pela voz de Cardoso Mirão, aí 2º sargento das forças portuguesas. Esta é uma parte da história muito pouco conhecida, tanto no diz respeito à participação portuguesa na I Guerra, muito centrada no palco europeu, como na formulação da ocupação colonial, então ainda muito incipiente em vastas zonas de Moçambique e inexistente noutras.


O livro é apaixonante, a descrição de uma campanha desorientada, que em pouco mais se traduziu do que numa longa e terrível caminhada pelo norte do país, e neste caso com quase inexistência de combates.

Trata-se de uma caminhada louca, ecoa-se o sofrimento inadjectivável de uma tropa errante, descomandada, desinformada, gradualmente desnorteada e logo desmoralizada. Sofrendo a inexistência de logística e a inadequação dos equipamentos (algo que este auto-retrato explicita). E tudo isto potenciado pela constante agressão da Natureza, os predadores, uma terrível fome, uma permanente sede e, acima de tudo, as doenças.

É comovente, ainda hoje, ler os lamentos do sargento sobre a situação das suas botas, faltando-lhe ainda meses de infindáveis caminhadas.

Como pano de fundo de toda essa situação, mas realmente apenas como pano de fundo, o opressivo temor do confronto com o corpo expedicionário alemão, uma pequena força de grande gabarito, comandada por um oficial verdadeiramente lendário, o o general Lettow-Vorbeck, a cuja se encontrava em constante movimento via Tanganyka, e que nunca veio a ser vencida.

Para quem conhece a zona (e eu tive o acaso nada fortuito de ler o livro durante uma estadia no Niassa, amplamente referenciado) pode tentar imaginar a dureza desta campanha.

É um grande livro sobre guerra, praticamente sem combates. Nele respira um antigo exército, de uma crueldade hierárquica extrema, que se julgaria apenas de Antigo Regime, no qual oficiais e soldados eram ainda de dois mundos, de duas ordens. E ainda os africanos, arregimentados como carregadores, escondidos num terceiro mundo.

Será interessante notar que tanto em Cabo Delgado como no Niassa há ainda a memória camponesa desta guerra dos "ma-germanes", difusamente datada numa época correspondente à real II Guerra Mundial. Efeitos da história local sobre a devastação provocada pela mobilização de milhares de carregadores, e sua extrema mortalidade, pelas forças em presença, alemãs, inglesas e portuguesas.

É pois um retrato espantoso. Da guerra e da sociedade que nela participava. Mas também uma visão especial de África. Não esta como a Ameaça, o Horror (a la Conrad). Mas mais como o palco desse Horror, um horror interno.

Um livro único no memorialismo português. E, mais uma vez, uma pergunta, como não filmar uma história destas?

Recensão de José Flávio Pimentel Teixeira (link) publicada com autorização do autor